Ex-motoristas de Uber e 99 migram para entregas da Shopee e Lalamove. Entenda como eles mantêm a renda, reduzem custos de combustível e ganham flexibilidade.
Olyvio Marques
Editor · Economia · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Um número crescente de motoristas de aplicativos como Uber e 99 está abandonando o transporte de passageiros para migrar para o setor de entregas de e-commerce, em plataformas como Shopee e Lalamove. A principal razão é financeira: eles conseguem manter ou até aumentar a renda rodando significativamente menos, o que resulta em uma drástica redução de custos com combustível e manutenção do veículo. Atualizado em 4 de agosto de 2026.
Relatos de motoristas que fizeram a transição ilustram a vantagem econômica. Tainá Casali, de Canoas (RS), afirma que, enquanto transportava passageiros, gastava R$ 100 de combustível por dia para rodar até 200 km em uma jornada de 12 horas, obtendo um lucro líquido de R$ 244. Após migrar para as entregas da Shopee, os mesmos R$ 100 de combustível duram até três dias, a rota diária caiu para 30 a 40 km e o tempo de trabalho foi reduzido para cerca de 4 horas para alcançar a mesma renda, segundo reportagem da Autoesporte. Isso representa uma redução de até 80% na quilometragem diária.
Outro motorista, Deives Lael, relatou ao GZH que precisava percorrer de 300 a 500 quilômetros por dia para obter um bom retorno com passageiros. Agora, com entregas, roda cerca de 100 quilômetros diários para um rendimento semelhante, chegando a faturar R$ 3,4 mil em uma semana.
Além da economia, a mudança é motivada pela busca por uma melhor qualidade de vida. Motoristas citam a vantagem de não ter o "embate direto com o passageiro", como apontou Carina Trindade, presidente do Simtrapli-RS, ao GZH. Isaac Toledo Dull, que hoje trabalha para a Lalamove, deixou o transporte de passageiros de moto por conta do estresse com calotes e reclamações, afirmando que agora tem maior sensação de liberdade e menos despesas de manutenção, conforme o portal Despachante DOK.
A flexibilidade é outro fator crucial. Uma pesquisa da Lalamove revelou que 65% dos motoristas parceiros são motivados pela possibilidade de conciliar o trabalho com compromissos pessoais. Karoline Marques Acosta, por exemplo, migrou para as entregas para ter mais tempo com sua filha, conseguindo uma rotina mais previsível.
Apesar das vantagens, a migração não é isenta de problemas. Um motorista de Florianópolis, que preferiu não se identificar, relatou à Autoesporte que as condições, inicialmente atrativas, podem piorar com o tempo, com redução de ganhos e aumento de exigências. Ele aponta regras de produtividade injustas, onde não atingir uma meta de 90% das entregas pode resultar na perda do pagamento do dia inteiro.
Outros desafios incluem a falta de flexibilidade para recusar rotas em áreas de risco, ao contrário do que ocorre no transporte de passageiros, e problemas com atrasos de pagamento por parte de algumas plataformas. Michele Bordignon, também de Canoas, menciona longas esperas nos centros de distribuição, que podem estender a jornada de trabalho para até 14 horas em alguns dias.
Motoristas estão migrando principalmente por razões econômicas e de qualidade de vida. Eles conseguem manter a mesma renda rodando até 80% menos, o que reduz drasticamente os custos com combustível e manutenção, além de evitar o estresse com passageiros e ganhar mais flexibilidade de horários.
Os motoristas estão migrando para uma variedade de plataformas impulsionadas pelo crescimento do e-commerce. As mais citadas são Shopee, Lalamove, Mercado Livre e Amazon, que investiram pesadamente em seus próprios sistemas de logística e entrega.
Para muitos motoristas, sim. Embora a renda bruta possa ser semelhante, a lucratividade aumenta devido à forte redução de despesas. O caso de Tainá Casali, em que R$ 100 de combustível passaram a durar três dias em vez de um para o mesmo ganho líquido, ilustra como a margem de lucro pode ser significativamente maior.
A migração de motoristas de Uber para plataformas de entrega como Shopee e Lalamove reflete uma mudança estrutural no mercado de trabalho por aplicativo, impulsionada pelo avanço do comércio eletrônico. A equação de rodar menos para ganhar o mesmo, com menos custos e mais flexibilidade, tem se mostrado uma alternativa poderosa, embora os trabalhadores ainda enfrentem desafios como regras de produtividade rígidas e a precarização do setor.
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