Pesquisa revela que onças-pardas levam 74 horas para voltar a locais frequentados por cães no interior de SP. Entenda o fenômeno da 'paisagem do medo'.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Um estudo conduzido por pesquisadores da Unesp revelou que onças-pardas no interior de São Paulo alteram seu comportamento para evitar áreas frequentadas por cães domésticos. Atualizado em 30 de julho de 2026, a pesquisa aponta que, após a passagem de um cão, o felino demora em média 74 horas para retornar ao mesmo local.
Publicado na revista científica Biological Conservation, o estudo utilizou 67 armadilhas fotográficas instaladas em duas unidades de conservação: a Estação Ecológica de Santa Bárbara e a Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara. Conforme apurado pelo Jornal da Unesp, durante quase um ano de monitoramento, foram registrados 300 eventos com cães e 194 com onças-pardas.
Os dados mostraram um padrão claro de esquiva por parte dos felinos. Além de demorarem em média 74 horas para voltar a um ponto específico, as onças-pardas só retomam o uso rotineiro daquela área após cinco ou seis dias, segundo a pesquisa. Essa mudança de comportamento ocorre mesmo sem que haja confrontos diretos entre as espécies.
Os pesquisadores explicam que esse comportamento é um exemplo do fenômeno conhecido como "paisagem do medo". De acordo com Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo, isso ocorre quando a simples percepção de um risco é suficiente para alterar rotas de deslocamento e horários de atividade de um animal. "O animal não precisa ser ferido para sofrer consequências", explicou ao Jornal da Unesp.
Essa evasão pode forçar a onça-parda a gastar mais energia procurando alimento ou a utilizar ambientes menos adequados, o que impacta sua qualidade de vida. Acredita-se que os felinos associem a presença de cães à proximidade de humanos ou ao risco de encontrar matilhas, que representam uma ameaça maior.
O estudo destaca que os cães registrados não são selvagens ou abandonados, mas sim "cães rurais de vida livre". Segundo a Superinteressante, são animais que possuem tutores e um lar, mas que circulam livremente por fazendas, estradas e áreas de vegetação nativa, entrando em unidades de conservação.
A bióloga Rita Bianchi, professora da Unesp, afirmou que a crescente presença desses animais nas áreas monitoradas motivou a pesquisa. Os autores defendem medidas como programas de castração, microchipagem e educação ambiental para incentivar a posse responsável e mitigar o impacto sobre a fauna silvestre.
As onças-pardas evitam os cães provavelmente por associá-los à presença humana e ao risco de confronto com matilhas. Mesmo sendo um predador de topo, o felino adota uma estratégia de precaução para minimizar riscos, um comportamento conhecido como "paisagem do medo".
De acordo com o estudo da Unesp, uma onça-parda demora, em média, 74 horas para retornar a um local após a passagem de um cão. A retomada do uso habitual da área só ocorre após cinco ou seis dias.
Não. A pesquisa identificou que a maioria são "cães rurais de vida livre", ou seja, animais que têm donos e vivem em propriedades rurais no entorno das unidades de conservação, mas que têm liberdade para circular sem supervisão.
A pesquisa da Unesp demonstra que a presença de cães domésticos de vida livre tem um impacto ecológico significativo e subestimado sobre a onça-parda, o maior predador terrestre em grande parte de São Paulo. A alteração de comportamento dos felinos reforça a necessidade de políticas públicas e conscientização sobre a posse responsável de animais em áreas rurais para a conservação da vida selvagem.
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