Em 1905, cervos foram trazidos à Argentina como ornamento. Hoje, são uma espécie invasora que ameaça ecossistemas locais. Entenda o impacto e os riscos.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
O que começou como um projeto paisagístico em 1905 tornou-se um problema ambiental de grandes proporções na Argentina. Naquele ano, o empresário Ernesto Tornquist importou gamos (uma espécie de cervo) da Europa para "decorar" sua propriedade. Mais de um século depois, esses animais se espalharam e hoje circulam livremente por três províncias, sendo oficialmente classificados como uma espécie exótica invasora. Atualizado em 23 de maio de 2024.
Segundo registros do CONICET, conselho de pesquisa argentino, Ernesto Tornquist introduziu os gamos em sua fazenda na região da Sierra de la Ventana, em Buenos Aires, com fins puramente ornamentais. No entanto, o que era para ser um toque europeu em sua paisagem local rapidamente extrapolou os limites da propriedade. A partir da década de 1930, exemplares começaram a ser solicitados por reservas de caça em todo o país, acelerando sua dispersão de forma descontrolada.
Como resultado, desde 2021, o gamo consta na lista oficial de espécies exóticas invasoras da Argentina, na categoria de "uso controlado". Isso significa que sua caça e criação são permitidas, mas sob regulamentação rigorosa. Atualmente, a espécie vive em liberdade nas províncias de Buenos Aires, Neuquén e Río Negro.
A presença desses cervos não nativos causa danos significativos aos ecossistemas. Na Ilha Victoria, por exemplo, os hábitos alimentares dos gamos quase eliminaram o maqui, uma planta nativa, no final da década de 1980. Estudos apontam que eles se alimentam seletivamente de espécies como o cipreste-da-cordilheira, o que facilita a proliferação de outras plantas invasoras, como os pinheiros europeus, alterando gradualmente a flora local.
Este não é um caso isolado. A Argentina e países vizinhos enfrentam um problema semelhante com outra espécie, o cervo Axis (ou chital), nativo da Ásia. Introduzido por volta de 1930 para fins de caça, o chital já invadiu mais de 10 províncias argentinas e chegou ao sul do Brasil, onde sua população também preocupa especialistas. Sem predadores naturais como o tigre de Bengala, sua população cresce de forma impressionante, competindo com espécies nativas e causando acidentes.
Duas espécies principais se tornaram invasoras: o gamo (Dama dama), trazido da Europa em 1905 para fins ornamentais, e o cervo Axis ou chital (Axis axis), originário da Ásia e introduzido por volta de 1930 para a caça esportiva.
Espécies exóticas invasoras competem por alimento e espaço com a fauna nativa, como o veado-campeiro. Elas podem alterar a vegetação, transmitir doenças e, por não terem predadores naturais no novo ambiente, suas populações crescem sem controle, causando desequilíbrio ecológico e riscos como acidentes em rodovias.
Os gamos estão estabelecidos principalmente nas províncias de Buenos Aires, Neuquén e Río Negro. Já o cervo Axis tem uma presença mais ampla, sendo encontrado em mais de dez províncias, com a situação sendo crítica em locais como Corrientes, que declarou a espécie uma praga.
A história dos cervos na Argentina serve como um alerta sobre as consequências imprevisíveis da introdução de espécies não nativas. O que começou como um capricho estético de um empresário há mais de um século resultou em um desafio ambiental complexo e duradouro, que se repete com outras espécies e ameaça a biodiversidade da América do Sul.
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