Moradores de cidades litorâneas, como Tramandaí (RS), enfrentam o avanço de dunas que invadem ruas e casas. Entenda as causas e as soluções propostas.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Atualizado em 22 de junho de 2026. Em cidades litorâneas do Brasil, uma batalha silenciosa é travada diariamente contra a natureza. Moradores de municípios como Tramandaí (RS), Xangri-Lá (RS) e Florianópolis (SC) enfrentam o avanço de "montanhas de areia" que soterram ruas, casas e comércios, um fenômeno impulsionado pela força dos ventos e pela ocupação urbana desordenada.
Na Barra de Tramandaí, no litoral gaúcho, a situação se tornou crítica. Moradores relatam que o avanço das dunas se agravou no último ano, com a areia chegando ao segundo piso de algumas residências. "A gente come areia aqui praticamente todos os dias", desabafa a moradora Maria Jardim, cuja casa é ameaçada por uma duna de aproximadamente oito metros de altura, segundo reportagem do G1.
O impacto também é econômico. Cristiano Simon, dono de uma pousada na região, afirmou ao SBT News que já perdeu mais de 50 clientes devido ao bloqueio do acesso à praia. "Tinha uma rua, mas ela desapareceu", lamentou. A limpeza das vias se mostra ineficaz, como descreve o aposentado Flávio da Silva Netto: "Limpar a rua é como secar gelo; no dia seguinte, a areia já voltou".
O avanço das dunas é um processo natural, mas que tem sido intensificado por fatores humanos. Especialistas apontam para uma combinação de ventos fortes, falta de vegetação de restinga para fixar a areia e, principalmente, a urbanização em áreas inadequadas.
No Rio Grande do Sul, o vento nordeste é o principal responsável por carregar a areia para o interior do continente. Em Santa Catarina, na Praia dos Ingleses, o fenômeno é causado pelo vento Sul, que, apesar de menos frequente, sopra com mais força e transporta os sedimentos, conforme explicou um especialista ao G1. No Ceará, o soterramento da antiga vila de Tatajuba foi causado por dunas que podem migrar até 30 metros por ano.
A geóloga Gabriela Rockett, da UFRGS, explica que a ocupação urbana tirou o espaço do meio ambiente. "Desde a década de 1950, se constrói sem considerar a dinâmica natural das dunas", afirmou ao SBT News. Em Florianópolis, as casas atingidas foram construídas de maneira irregular dentro de uma Área de Preservação Permanente (APP), o que agrava o problema e dificulta a intervenção do poder público.
As dunas funcionam como uma barreira natural contra a erosão costeira, o que torna qualquer intervenção um desafio complexo. Em Tramandaí, a prefeitura solicitou à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) autorização para instalar barreiras com toras de madeira e plantar vegetação nativa. No entanto, a liberação depende de análises técnicas, pois a área é de proteção permanente.
A Fepam reforça que a responsabilidade pela gestão do território é do município, que deve apresentar um Plano de Manejo de Dunas. Enquanto as soluções não chegam, a Defesa Civil em locais como Florianópolis monitora a situação, mas age com cautela para não acentuar o problema ambiental.
O avanço das dunas não é um fenômeno novo. Na década de 1970, a antiga vila de Tatajuba, no Ceará, foi completamente soterrada. O professor Jeovah Meireles, da UFC, explica que a comunidade foi instalada diretamente na rota de migração das dunas. "Era uma vila muito grande, que se não tivesse soterrada, hoje era quase uma cidade", relatou ao G1 o pescador João Batista dos Santos, cuja família viveu no local.
O avanço é causado principalmente pela ação dos ventos (como o nordeste no RS) que transportam a areia. O problema é agravado pela remoção da vegetação nativa e pela construção de imóveis em áreas de dunas, que são ecossistemas naturalmente móveis.
Em muitos casos, não. Em Florianópolis, por exemplo, os imóveis atingidos foram construídos irregularmente em uma Área de Preservação Permanente (APP), conforme a legislação ambiental. A ocupação inadequada do solo é um dos principais fatores de risco.
As soluções incluem a instalação de barreiras físicas, como cercas ou toras de madeira, e o plantio de vegetação nativa para fixar a areia. Essas ações, no entanto, precisam ser aprovadas por órgãos ambientais, como a Fepam no RS, pois as dunas são áreas protegidas.
O avanço das dunas sobre cidades brasileiras expõe um conflito complexo entre a ocupação humana e a dinâmica da natureza. A solução exige um planejamento urbano que respeite os ecossistemas costeiros e a implementação de planos de manejo que equilibrem a proteção ambiental com a segurança dos moradores.
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