O caso do instrutor argentino que saltou de um Cessna 150 levanta debates. Entenda por que abrir a porta de aeronaves leves é um procedimento técnico possível e como a saúde mental é um tabu na aviação.
Olyvio Marques
Editor · Mundo · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
O caso do instrutor de voo argentino que se jogou de um avião em pleno ar chocou o mundo, mas um detalhe técnico chamou a atenção: a possibilidade de abrir a porta da aeronave. Segundo especialistas, em aviões de pequeno porte como o Cessna 150, essa ação não só é viável como já foi uma manobra ensinada em treinamentos de emergência. Atualizado em 10 de julho de 2026.
A imagem de uma porta de avião sendo aberta em pleno voo geralmente pertence à ficção, mas no caso de aeronaves leves e não pressurizadas como o Cessna 150, a realidade é diferente. De acordo com Raul Marinho, diretor técnico da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), a baixa velocidade e a altitude reduzida são fatores cruciais. A aeronave estava a cerca de 250 metros de altura, onde a pressão do ar dentro e fora da cabine é praticamente a mesma, conforme relatado pela Rádio Itatiaia.
Marinho explica que a velocidade mínima de voo (estol) do Cessna 150 é de aproximadamente 88 km/h (42 nós). Ele compara a ação a abrir a porta de um carro em movimento na estrada: "não é algo fácil de se fazer, mas também não é impossível", afirmou em entrevista ao G1.
Longe de ser um ato impensado, abrir a porta de um Cessna 150 em voo já fez parte do currículo de formação de pilotos. Raul Marinho relatou que, durante seu treinamento, aprendeu a realizar a manobra, que exigia posicionar o pé contra a porta e empurrar com força, segundo a Rádio Itatiaia.
O procedimento era ensinado para situações de emergência extremas, como a perda de controle da aeronave por rompimento de cabos. Ao abrir a porta, cria-se uma resistência aerodinâmica que pode ser usada para ajudar a realizar curvas, demonstrando um conhecimento técnico aprofundado para contornar falhas críticas.
O incidente com o instrutor Leandro Bertazzo, de 42 anos, trouxe à tona a delicada questão da saúde mental no setor aeronáutico. Investigações revelaram que Bertazzo havia procurado atendimento psiquiátrico, um fato que não foi comunicado à escola de aviação Flying Parrot e era de conhecimento apenas de sua família, como apurado pela revista VEJA. Seu pai declarou à imprensa argentina que o filho "estava passando por um momento difícil".
Para Raul Marinho, "a saúde mental é tabu em todas as áreas, mas um tabu muito maior na aviação". O especialista alerta que o receio de perder o certificado médico, que os impede de voar, leva muitos profissionais a não procurarem ajuda, ocultando problemas que podem ter consequências graves.
Leandro Bertazzo, um instrutor de 42 anos, saltou de um avião Cessna 150 durante um voo de treinamento a 250 metros de altitude na província de Córdoba. Antes de pular, ele teria dito à sua aluna: "Você sabe o que tem que fazer, siga em frente". Seu corpo foi encontrado em uma área rural.
Sim. A aluna de 22 anos, que já possuía licença de pilotagem mas tinha poucas horas de voo no modelo, manteve a calma, contatou a torre de controle e conseguiu pousar a aeronave em segurança, seguindo os procedimentos de emergência.
Em aeronaves pequenas e não pressurizadas como o Cessna 150, voando a baixa altitude, não há a descompressão explosiva vista em filmes. A abertura da porta causa um forte ruído e vento, mas não suga objetos ou pessoas para fora, permitindo que um piloto treinado mantenha o controle.
O trágico evento na Argentina revela duas facetas da aviação: a robustez do treinamento de pilotos, que permitiu à aluna pousar em segurança após uma situação extrema, e a urgente necessidade de discutir abertamente a saúde mental no setor, um tabu que pode ter consequências devastadoras. A capacidade técnica de abrir a porta em voo, embora chocante, era um procedimento conhecido, mas as razões que levaram ao ato apontam para uma crise silenciosa que precisa ser abordada.
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