Novo consenso internacional muda o foco do tratamento da obesidade. Saiba quando é hora de reduzir ou parar Ozempic e Mounjaro e por que o objetivo vai além do peso.
Olyvio Marques
Editor · Saúde · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Um primeiro consenso internacional, publicado no periódico científico The Lancet Diabetes & Endocrinology, estabelece novas diretrizes sobre quando reduzir ou parar o uso de medicamentos para obesidade como Ozempic e Mounjaro. Atualizado em 19 de julho de 2026, o documento propõe uma mudança de perspectiva: emagrecer deixa de ser o único objetivo do tratamento, que passa a priorizar a qualidade de vida, a preservação muscular e a saúde mental.
Elaborado por três entidades europeias — a European Association for the Study of Obesity (EASO), a European Federation of the Associations of Dietitians (EFAD) e a European Coalition for People Living with Obesity (ECPO) —, o documento reforça que o sucesso do tratamento deve ser medido por um cuidado mais amplo. "A grande importância deste primeiro consenso está em mostrar que o tratamento não se restringe a tomar a injeção e perder peso", afirma Fernando Valente, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), em entrevista ao G1.
A nova abordagem foca em individualizar as decisões sobre a dose e acompanhar de perto a nutrição e o bem-estar do paciente, evitando que uma perda de peso sem monitoramento leve à desnutrição ou sofrimento psíquico.
A decisão de ajustar a medicação deve ser compartilhada entre médico e paciente. O consenso lista sinais claros que exigem uma reavaliação do tratamento, indicando que reduzir a dose, fazer uma pausa ou suspender o uso pode ser a melhor conduta. Fique atento a:
Rodrigo Lamounier, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), ressalta que a interrupção nem sempre significa um fracasso terapêutico, mas pode ser uma decisão de bom senso quando as metas são atingidas ou os efeitos adversos se tornam um problema.
Perder peso não significa, necessariamente, ganhar saúde. O consenso destaca que o tratamento da obesidade deve ser multifatorial, com atenção especial à composição corporal e ao bem-estar emocional.
Parte do peso eliminado com esses medicamentos corresponde à perda de massa muscular, o que pode levar à fraqueza e sarcopenia. Para combater isso, o documento recomenda a prática regular de exercícios de força, como a musculação, e uma dieta rica em proteínas, com ingestão de 1 a 1,5 grama por quilo de peso, e um mínimo de 60 gramas por dia.
O documento aborda pela primeira vez o "ruído alimentar" (food noise), descrito como pensamentos persistentes sobre comida. Embora os medicamentos ajudem a reduzir esse impulso, a mudança na relação com a alimentação pode gerar angústia ou uma crise de identidade em pessoas que usavam a comida como "muleta emocional", exigindo acompanhamento psicológico.
Não. Uma das mensagens centrais do consenso é que a dose máxima não deve ser um objetivo automático. A decisão deve ser orientada pela resposta clínica de cada pessoa, considerando a saciedade, a perda de peso e a tolerância aos efeitos adversos. Pacientes com doenças metabólicas sem grande excesso de peso podem se beneficiar de doses menores.
A recuperação de peso é comum. Um estudo conhecido como STEP 1 Extension mostrou que, um ano após interromper o uso da semaglutida (princípio ativo do Ozempic), os pacientes recuperaram, em média, dois terços do peso que haviam perdido. Além disso, benefícios cardiometabólicos, como melhora na pressão e colesterol, também podem regredir.
Sim, mas é um desafio. Manter o peso após a interrupção do tratamento exige a manutenção de hábitos saudáveis construídos durante o processo, como alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos e acompanhamento médico contínuo. A obesidade é tratada como uma doença crônica que pode exigir manejo a longo prazo.
O primeiro consenso internacional para o uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro marca uma nova fase no tratamento da obesidade. O foco se desloca da simples perda de peso para um cuidado integral, que valoriza a nutrição, a força muscular e a saúde mental. A mensagem principal é clara: o tratamento deve ser individualizado e sempre supervisionado por uma equipe de saúde qualificada.
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