O canto do sabiá-laranjeira antes do amanhecer é uma adaptação para sobreviver ao ruído urbano. Saiba como a poluição sonora afeta a ave-símbolo do Brasil.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
O sabiá-laranjeira, ave-símbolo do Brasil, tem trocado o amanhecer pela madrugada para seu canto, uma mudança de hábito impulsionada pelo barulho das grandes cidades. Atualizado em 22 de junho de 2026, estudos e observações indicam que a ave antecipa sua vocalização para fugir da poluição sonora e garantir que sua mensagem seja ouvida.
O canto do sabiá-laranjeira, especialmente durante o período reprodutivo que vai de setembro a janeiro, tem duas funções principais: atrair fêmeas e demarcar território. Nas cidades, o intenso ruído de veículos e da atividade humana durante o dia compete diretamente com a vocalização da ave. Para ser ouvido, o sabiá busca uma "janela silenciosa" na madrugada, como aponta uma pesquisa da USP.
Segundo Erika Hingst-Zaher, diretora do Museu Biológico do Instituto Butantan, o sabiá precisa ser ouvido "acima do ruído que a gente produz na cidade", comparando o canto a uma "espécie de Tinder" para encontrar parceiras. Essa adaptação é uma estratégia de sobrevivência no ambiente urbano.
A poluição sonora nas metrópoles força uma mudança drástica no comportamento da ave. Um projeto de ciência cidadã chamado "A Hora do Sabiá" concluiu que, em cidades como São Paulo, o canto pode começar até cinco horas mais cedo em comparação com áreas rurais ou cidades menores. Em locais de mata, como o Horto Florestal, sabiás cantam por volta das 5h, mas perto da Avenida Paulista, há registros de cantos durante a noite inteira.
Essa antecipação é uma tentativa de superar o barulho urbano, que em áreas residenciais pode atingir de 70 a 100 decibéis, enquanto o canto do sabiá alcança no máximo 70 decibéis. A ave precisa cantar antes que a cidade "acorde" para que sua melodia não seja abafada.
Embora a adaptação pareça bem-sucedida, ela pode ter custos. Especialistas apontam que cantar por mais tempo ou em horários não naturais exige um gasto maior de energia, que poderia ser usada para a reprodução. O biólogo Sandro Von Matter, responsável pelo projeto "A Hora do Sabiá", sugere que a população de sabiás em São Paulo pode estar passando por uma "seleção natural artificial", onde a insônia se torna uma característica transmitida entre gerações, afetando a saúde e a expectativa de vida da espécie. Contudo, ainda não existem estudos conclusivos que comprovem uma redução no sucesso reprodutivo por conta dessa mudança.
Tradicionalmente, o sabiá-laranjeira canta ao amanhecer e ao entardecer. No entanto, em grandes centros urbanos como São Paulo, é comum ouvi-lo cantar de madrugada, a partir das 2h ou 3h da manhã, para evitar a competição com o ruído da cidade.
Sim, a poluição luminosa pode confundir o relógio biológico das aves, fazendo-as pensar que ainda é dia. Pesquisadores da USP trabalham com a hipótese de que tanto a poluição sonora quanto a luminosa influenciam o comportamento do sabiá. No entanto, estudos com outras espécies em locais de latitude similar à do Brasil sugerem que o ruído é um fator mais determinante que a luz.
Sim, o canto do sabiá-laranjeira pode atingir até 70 decibéis (dB), um volume comparável ao de um liquidificador ligado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o nível de ruído para uma audição saudável seja de até 50 dB.
O canto antecipado do sabiá-laranjeira é uma fascinante e necessária adaptação à vida nas metrópoles. Para garantir sua reprodução e sobrevivência, a ave-símbolo do Brasil aprendeu a "driblar" a poluição sonora, transformando a madrugada em seu palco. Essa mudança, no entanto, serve como um alerta sobre o impacto do ruído urbano na vida selvagem que coexiste conosco.
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