Pesquisa com 172 onças-pintadas identificou uma área conectada de 6,5 milhões de km² vital para a espécie. Entenda o que é essa 'espinha dorsal' da conservação.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Um estudo inédito, baseado na mais ampla compilação de dados de movimentação de onças-pintadas, identificou uma vasta área conectada de 6,5 milhões de quilômetros quadrados que funciona como a "espinha dorsal" para a conservação da espécie na América do Sul. Atualizado em 24 de outubro de 2026, o trabalho liderado por pesquisadores brasileiros utilizou dados de GPS de 172 animais para mapear os corredores vitais que se estendem por 11 países.
A "espinha dorsal" é a maior e mais importante área contínua identificada pela pesquisa, com aproximadamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados. Conforme aponta o estudo publicado na revista científica Global Change Biology, essa região se estende por 11 países e territórios da América do Sul, conectando biomas cruciais como os Llanos, a Amazônia, o Gran Chaco e o Pantanal. É por meio dessa imensa área que diferentes populações do maior felino das Américas conseguem se deslocar, encontrar parceiros e garantir a diversidade genética necessária para a sobrevivência a longo prazo.
A conectividade é fundamental para a saúde das populações de onças-pintadas. Um habitat conservado, mas isolado, não é suficiente. Os animais precisam de "corredores" para se mover entre diferentes áreas em busca de alimento e parceiros reprodutivos. Esse deslocamento permite o chamado fluxo gênico — a troca de material genético entre populações distintas.
Segundo o pesquisador Guilherme Costa Alvarenga, líder do estudo, o isolamento aumenta os cruzamentos entre indivíduos aparentados. "Ao longo do tempo, isso pode reduzir a capacidade de adaptação da população e favorecer doenças de origem genética", explica Alvarenga ao Instituto Mamirauá. Esse processo já foi observado em populações isoladas na Mata Atlântica e na América Central.
A pesquisa representa um avanço significativo em relação a avaliações anteriores, que dependiam mais do conhecimento de especialistas. Desta vez, os cientistas utilizaram a maior base de dados de movimentação da espécie já reunida, com 231.017 registros de localização de 172 onças-pintadas (86 machos e 86 fêmeas) monitoradas com colares de GPS. Com essas informações, os pesquisadores modelaram como fatores como presença humana, estradas e rios facilitam ou dificultam o deslocamento dos animais.
Apesar da descoberta da "espinha dorsal", o estudo alerta que essa conexão não é contínua em toda a área de ocorrência da espécie. Atividades humanas como agricultura, construção de estradas e expansão urbana criam barreiras que fragmentam o habitat e isolam populações. De acordo com os dados, as interrupções mais críticas foram encontradas no México e na América Central. No Brasil, as populações da Mata Atlântica costeira aparecem amplamente isoladas, tanto da grande rede sul-americana quanto umas das outras.
Este estudo atualiza o planejamento de conservação da espécie, como a Jaguar Corridor Initiative, com dados reais de movimentação em escala continental. Ele fornece um mapa detalhado das conexões que ainda existem e daquelas que precisam ser recuperadas, orientando ações de conservação mais eficazes.
A pesquisa mapeou um total de 307 áreas núcleo, que são territórios favoráveis para a presença e dispersão das onças, somando 7,75 milhões de km². Além disso, foram identificados 176 corredores de dispersão que conectam essas áreas.
As principais ameaças são a perda e a fragmentação de habitat, causadas pelo desmatamento para agricultura e pastagens. Outros riscos incluem o conflito com humanos devido à predação de gado, a caça ilegal e os atropelamentos em rodovias que cortam seus territórios.
O mapeamento da "espinha dorsal" da onça-pintada oferece uma ferramenta poderosa para a conservação. Ele evidencia a urgência de proteger as grandes áreas conectadas na América do Sul e, ao mesmo tempo, de criar e restaurar corredores ecológicos em regiões fragmentadas. A sobrevivência do maior felino das Américas depende de um esforço coordenado entre países para garantir que esses caminhos permaneçam abertos.
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