Uma espécie de caracol nativo, dizimada por um predador introduzido em 1955, foi reintroduzida em área protegida após 33 anos em cativeiro. Entenda o caso.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Uma espécie de caracol havaiano, a Achatinella fuscobasis, considerada extinta na natureza por mais de 30 anos, foi reintroduzida com sucesso em uma floresta protegida na ilha de Oʻahu em 2024. Atualizado em 5 de outubro de 2026, este evento marca um capítulo crucial na tentativa de reverter os danos de uma desastrosa intervenção humana iniciada há 69 anos.
Em 1955, o Havaí enfrentava um problema agrícola com o caracol-gigante-africano (Achatina fulica), uma espécie invasora que prejudicava plantações. Na tentativa de um controle biológico, autoridades introduziram o Euglandina rosea, também conhecido como caracol-lobo-rosado, um predador nativo da Flórida. A intenção era que ele caçasse o invasor africano.
No entanto, o plano falhou catastroficamente. O caracol-lobo-rosado não se limitou à sua presa designada e começou a atacar de forma voraz os caracóis nativos do arquipélago, muitos dos quais eram espécies endêmicas e já vulneráveis. A introdução do Euglandina rosea é diretamente responsável pela extinção de pelo menos oito espécies de caracóis nativos do Havaí, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
Diante do declínio acentuado das populações nativas, uma medida drástica foi tomada. Em 1991, o pesquisador Michael Hadfield recolheu os últimos 11 indivíduos conhecidos da espécie Achatinella fuscobasis para iniciar um programa de reprodução em cativeiro. Sem essa intervenção, a espécie provavelmente teria desaparecido por completo.
Após 33 anos de trabalho em laboratório, a população cresceu para mais de mil exemplares. Em 2024, o primeiro grupo foi finalmente devolvido à natureza, mas não a uma floresta desprotegida. Foi criada uma área especial para garantir sua sobrevivência.
Para proteger os caracóis reintroduzidos, foi construído um recinto de exclusão na Reserva Florestal da Bacia de Honolulu. A estrutura foi projetada para impedir a entrada de ameaças que ainda persistem no arquipélago, como:
A barreira inclui paredes de polietileno de 1,5 metro de altura, abas inclinadas, malha de fios de cobre e uma cobertura protetora. O projeto levou cinco anos para ser concluído, envolvendo também a remoção de plantas invasoras e a restauração da vegetação nativa, que serve de alimento para os caracóis.
A espécie reintroduzida em 2024 é a Achatinella fuscobasis, um caracol arbóreo nativo da ilha de Oʻahu que estava extinto na natureza desde 1991.
O Euglandina rosea, ou caracol-lobo-rosado, foi introduzido em 1955 como uma tentativa de controle biológico para combater o caracol-gigante-africano, uma praga agrícola invasora.
Os caracóis nativos, conhecidos localmente como kāhuli, desempenham um papel ecológico vital, alimentando-se de fungos que crescem nas folhas das árvores e ajudando na saúde do ecossistema florestal. Além disso, possuem grande valor cultural, aparecendo em histórias e poemas tradicionais havaianos.
A reintrodução da Achatinella fuscobasis é uma conquista histórica para a conservação, mas também um lembrete severo sobre os perigos de introduzir espécies não nativas em ecossistemas frágeis. O sucesso a longo prazo dependerá do monitoramento contínuo e do controle das ameaças que quase levaram esses animais à extinção. O caso representa uma esperança, mostrando que, com planejamento e esforço dedicado, é possível começar a reverter danos ambientais.
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