Estudo inédito da Unesp revela que onças-pardas evitam áreas frequentadas por cães por até 6 dias. Entenda o impacto da "paisagem do medo" na fauna.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
A presença de cães de vida livre em unidades de conservação no interior de São Paulo está alterando o comportamento das onças-pardas (Puma concolor), aponta um estudo inédito de pesquisadores da Unesp. Atualizado em 25 de julho de 2026. A pesquisa, publicada na revista científica Biological Conservation, revela que os grandes felinos chegam a evitar uma área por mais de 74 horas após a passagem de um cão, retomando o uso rotineiro do local apenas após cinco ou seis dias.
Utilizando 67 armadilhas fotográficas na Estação Ecológica de Santa Bárbara e na Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara, os pesquisadores registraram 300 eventos com cães domésticos e 194 com onças-pardas ao longo de quase um ano. A análise dos dados mostrou que, embora as espécies ocupem os mesmos territórios, elas ajustam seus horários para evitar encontros.
Conforme o estudo, os cães apresentaram comportamento predominantemente diurno, enquanto as onças mantiveram seus hábitos crepusculares e noturnos. Apesar dessa separação temporal, a simples presença canina é suficiente para gerar a esquiva do felino, que reorganiza seus deslocamentos para minimizar riscos.
Esse padrão de comportamento é explicado pelo conceito de "paisagem do medo". Segundo os pesquisadores, a mera percepção de um risco, mesmo sem um confronto direto, é suficiente para que a onça-parda altere suas rotas de deslocamento e caça. As onças podem associar os cães à presença humana ou ao perigo de matilhas, optando por se afastar para evitar conflitos.
“Se ele deixa de usar uma área de boa qualidade, passa a gastar mais energia procurando alimento ou utilizando um ambiente menos adequado, isso também reduz sua qualidade de vida”, explicou Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo, ao Jornal da Unesp.
O estudo destaca que os animais registrados não são cães abandonados, mas sim "cães rurais de vida livre". Eles possuem tutores e um lar, mas circulam sem supervisão pelas propriedades e áreas de mata. Além de alterarem o comportamento da fauna, podem competir por alimentos, transmitir doenças e formar matilhas.
Para mitigar o problema, os autores defendem ações integradas nas comunidades do entorno, como programas de castração, vacinação, microchipagem e educação ambiental para incentivar a posse responsável.
Pesquisadores acreditam que as onças associam os cães à presença humana, que elas naturalmente evitam. Além disso, embora um cão sozinho não seja uma grande ameaça, o risco de encontrar uma matilha torna o afastamento uma estratégia de sobrevivência mais segura para o felino.
A pesquisa foi conduzida em duas unidades de conservação no interior de São Paulo: a Estação Ecológica de Santa Bárbara e a Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara.
A principal conclusão é que o impacto dos cães sobre a fauna selvagem vai além de ataques diretos. A simples presença deles cria uma "paisagem do medo" que força o maior predador terrestre da região a alterar seu comportamento, o que pode afetar sua caça e uso de habitat.
O estudo da Unesp evidencia um conflito silencioso entre espécies domésticas e silvestres. A alteração no comportamento da onça-parda por causa de cães de vida livre reforça a urgência de políticas de posse responsável no campo para garantir a coexistência e a proteção da biodiversidade em áreas protegidas e seus arredores.
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