Pesquisa da Unesp revela que onças-pardas evitam locais frequentados por cães por até seis dias. Entenda o que é a "paisagem do medo" e o impacto na fauna.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) revelou que a presença de cães domésticos está alterando significativamente o comportamento de onças-pardas (Puma concolor) em áreas de conservação no interior de São Paulo. De acordo com a pesquisa, os felinos evitam retornar a locais por onde os cães passaram, demorando em média 74 horas para voltar e até seis dias para retomar o uso rotineiro da área. Atualizado em 29 de julho de 2026.
Publicado na revista científica Biological Conservation, o estudo utilizou 67 armadilhas fotográficas instaladas em duas unidades de conservação: a Estação Ecológica de Santa Bárbara e a Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara. Durante quase um ano de monitoramento, foram registrados 300 eventos envolvendo cães domésticos e 194 de onças-pardas, conforme apurado pelo Jornal da Unesp.
Os dados mostraram que, embora as duas espécies possam usar as mesmas áreas, elas o fazem em horários diferentes. Os cães apresentaram atividade predominantemente diurna, enquanto as onças mantiveram seu padrão crepuscular e noturno. Mesmo sem confrontos diretos, a simples passagem de um cão era suficiente para afastar o maior predador terrestre da região por dias.
“Foi uma surpresa quando rodamos a análise e vimos que as onças demoravam para voltar a uma determinada área depois da passagem dos cães”, afirmou Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo, em entrevista ao Jornal da Unesp.
O comportamento de esquiva das onças é explicado pelo fenômeno conhecido como “paisagem do medo”. Segundo a Superinteressante, isso ocorre quando a simples possibilidade de encontrar um risco já é suficiente para alterar rotas de deslocamento e horários de atividade de um animal, mesmo que não haja um ataque direto.
Os pesquisadores levantam algumas hipóteses para essa reação:
O estudo esclarece que os animais registrados não são selvagens ou abandonados. Trata-se de "cães rurais de vida livre": animais que têm tutores e um lar para retornar, mas que circulam sem supervisão por fazendas, estradas e áreas de vegetação nativa, como informado pelo portal Acontece Botucatu. O problema, portanto, está ligado à posse responsável.
A surpresa ocorreu porque, como predador de topo de cadeia, esperava-se que a onça-parda impusesse respeito e dominasse o ambiente. No entanto, o estudo mostrou que é o felino quem altera seu comportamento para evitar os cães, e não o contrário, conforme relatado por pesquisadores ao Metrópoles.
É um conceito da ecologia que descreve como a percepção de risco ou medo de predação pode alterar o comportamento de um animal, forçando-o a evitar certas áreas ou a mudar seus horários de atividade para não encontrar uma ameaça, mesmo na ausência de um confronto direto.
Os autores do estudo defendem medidas de manejo e posse responsável nas comunidades rurais do entorno das unidades de conservação. As soluções incluem programas de castração, vacinação, microchipagem e ações de educação ambiental para incentivar que os tutores mantenham seus cães supervisionados, protegendo tanto os animais domésticos quanto a fauna silvestre.
A pesquisa da Unesp acende um alerta sobre os impactos indiretos que animais domésticos podem causar na vida selvagem. A alteração no comportamento da onça-parda, forçada a abandonar áreas de caça e deslocamento pela simples presença de cães, demonstra a urgência de políticas de posse responsável em áreas rurais para garantir a conservação de espécies vulneráveis.
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