A Turquia construiu mais de 20 barragens nos rios Tigre e Eufrates, reduzindo o fluxo de água para Síria e Iraque. Entenda os riscos de uma crise humanitária.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Um ambicioso projeto de infraestrutura da Turquia, com a construção de mais de 20 grandes barragens nos rios Tigre e Eufrates, está gerando uma grave crise hídrica que ameaça o abastecimento de água da Síria e do Iraque. Atualizado em 22 de junho de 2026, o cenário é alarmante: o Ministério dos Recursos Hídricos do Iraque estima que o rio Eufrates pode secar completamente até 2040 devido à drástica redução de seu fluxo.
O epicentro da tensão é o Projeto do Sudeste da Anatólia (GAP), um plano turco para construir usinas hidrelétricas e sistemas de irrigação. Desde a década de 1970, a Turquia ergueu pelo menos vinte barragens no Eufrates e seus afluentes, incluindo a Represa de Ataturk, a quinta maior do mundo em geração de energia, e a controversa Barragem de Ilisu, no rio Tigre. Essas estruturas retêm um volume massivo de água que antes fluía livremente para os países vizinhos.
Dados hidrológicos revelam o tamanho do impacto. O fluxo médio do Eufrates ao entrar no Iraque, que era de 720 metros cúbicos por segundo antes das grandes barragens, hoje é de aproximadamente 260 m³/s, uma redução de quase dois terços. Em Bagdá, os níveis do rio Tigre caíram 40% nos últimos 20 anos, a ponto de residentes conseguirem atravessar o rio a pé em alguns trechos.
A diminuição da vazão dos rios Tigre e Eufrates, dos quais cerca de 60 milhões de pessoas dependem, desencadeou uma cascata de problemas graves para o Iraque e a Síria, nações localizadas a jusante.
Com menos água doce, a concentração de poluentes e esgoto aumenta, tornando os rios tóxicos. No verão de 2018, em Basra, no sul do Iraque, cerca de cem mil pessoas foram hospitalizadas devido a doenças de veiculação hídrica. A escassez também está ligada à propagação de doenças como leishmaniose e cólera, agravadas pela falta de acesso a tratamento médico adequado em áreas remotas.
A agricultura, que consome cerca de 80% da água do Iraque, foi devastada. A redução do fluxo permitiu que a água salobra do Golfo Pérsico avançasse rio acima, causando a morte de peixes e a salinização de terras férteis. Estima-se que 1,5 milhão de hectares de terras cultiváveis já foram abandonados no Iraque. Na Síria, uma seca severa entre 2006 e 2009, agravada pela falta de água dos rios, forçou a migração de 1,5 milhão de agricultores para as cidades, um fator que contribuiu para a instabilidade social que antecedeu a guerra civil.
A Turquia construiu pelo menos 20 grandes barragens nos rios Tigre e Eufrates desde os anos 1970 como parte do Projeto do Sudeste da Anatólia (GAP). Além disso, o país planeja concluir um total de 1.700 novas barragens e açudes dentro de suas fronteiras.
A Síria e o Iraque são os países mais afetados. Suas nascentes estão na Turquia, que controla o fluxo de água, deixando as nações a jusante vulneráveis à escassez para consumo, agricultura e geração de energia.
Sim. Segundo uma estimativa do Ministério dos Recursos Hídricos do Iraque, o rio Eufrates pode secar completamente até o ano de 2040 se os níveis de água continuarem a diminuir no ritmo atual, impulsionado pelas barragens e pelas mudanças climáticas.
A gestão unilateral dos recursos hídricos pela Turquia transformou os rios Tigre e Eufrates em um foco de tensão geopolítica. Enquanto a Turquia defende seu direito de usar a água para desenvolvimento, Síria e Iraque enfrentam uma crise existencial. A situação é um exemplo claro de como a disputa por água, exacerbada pelas mudanças climáticas, pode se tornar um gatilho para conflitos e instabilidade em uma das regiões mais conturbadas do mundo.
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