Conheça a história de Júlio Frank, o alemão enterrado na USP que fundou a Bucha, uma sociedade secreta que influenciou a política e teve 8 presidentes.
Olyvio Marques
Editor · História · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Em um pátio interno da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), um túmulo em forma de obelisco guarda os restos mortais de Júlio Frank, o professor alemão que fundou uma das mais poderosas e influentes sociedades secretas do Brasil: a Burschenschaft Paulista, mais conhecida como "Bucha". Atualizado em 11 de agosto de 2026.
Nascido em 1808, Johann Julius Gottfried Ludwig Frank chegou ao Brasil em 1828 e, em 1834, tornou-se professor na faculdade, conforme registros da época. A organização que ele criou começou com um propósito filantrópico, mas evoluiu para uma rede de poder que moldou a política nacional, especialmente durante a República Velha.
Júlio Frank nasceu em Gotha, na Alemanha, em 1808 — e não em 1809, como consta em sua lápide. Filho de um encadernador, teve uma juventude cercada por livros e destacou-se na Universidade de Göttingen. No entanto, após se envolver em dívidas e brigas, foi expulso e fugiu para o Brasil em 1828, trocando a passagem por trabalho de faxina no navio, segundo o biógrafo Afonso Schmidt.
Após uma breve passagem pelo Rio de Janeiro, seguiu para Sorocaba, no interior de São Paulo, onde começou a dar aulas particulares para filhos de fazendeiros que se preparavam para ingressar na recém-fundada Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Seu conhecimento em línguas, história e geografia rapidamente o destacou, e ele se mudou para a capital paulista junto com seus alunos, tornando-se professor do curso anexo da instituição em 1834.
A ideia para a sociedade secreta surgiu da observação de Frank sobre as dificuldades financeiras de alguns estudantes. Inspirado nas associações estudantis alemãs, as Burschenschaften ("sociedade de camaradas"), ele propôs a criação de um grupo para auxiliar alunos pobres de forma sigilosa, evitando constrangimentos.
Oficialmente fundada em 4 de julho de 1830, a Bucha tinha uma estrutura hierárquica e rituais de inspiração maçônica. Dentro da faculdade, os membros eram divididos em "Catecúmenos", "Crentes" e "Doze Apóstolos". Fora dos muros acadêmicos, os já formados compunham os "Chefes Supremos" e o "Conselho dos Divinos", a instância máxima da organização.
Com o tempo, o propósito filantrópico deu lugar a uma poderosa rede de influência. Conforme os membros se formavam e ocupavam cargos importantes no governo, na magistratura e na diplomacia, eles se ajudavam mutuamente. Acredita-se que, durante a República Velha (1889-1930), nenhum ministro, juiz ou presidente era indicado sem a aprovação do "Conselho dos Divinos", segundo o historiador Paulo Rezzutti.
A influência da Bucha foi vasta, incluindo a participação de membros na fundação do Partido Republicano Paulista e na comissão que elaborou o anteprojeto da primeira Constituição republicana. Entre seus integrantes mais famosos estavam figuras como os poetas Castro Alves e Álvares de Azevedo, o Barão do Rio Branco e oito presidentes da República: Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Venceslau Brás, Artur Bernardes, Washington Luís e Júlio Prestes.
O objetivo inicial da Burschenschaft Paulista era puramente filantrópico: criar um fundo secreto para ajudar financeiramente estudantes de direito pobres e talentosos, inspirado em associações estudantis alemãs.
Oito presidentes da República Velha foram membros da Bucha: Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Venceslau Brás, Artur Bernardes, Washington Luís e Júlio Prestes.
A sociedade secreta submergiu na clandestinidade após a Revolução de 1930 e oficialmente deixou de existir nas primeiras décadas do século 20. Segundo o historiador Afonso Arinos de Melo e Franco, a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP, criada em 1931, serviu como uma espécie de sucessora institucional.
A história de Júlio Frank e da Bucha é um capítulo singular da história brasileira, mostrando como uma iniciativa de auxílio estudantil se transformou em uma das mais poderosas redes de poder político do país. O túmulo de seu fundador, mantido no coração da Faculdade de Direito da USP, permanece como um testemunho silencioso da influência que começou nas arcadas do Largo São Francisco e se estendeu aos mais altos escalões da República.
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