Abandonadas em 1871 na Ilha Amsterdam, cinco vacas deram origem a um rebanho de 2 mil animais. Entenda a genética e o destino deste experimento natural.
Olyvio Marques
Editor · Curiosidades · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Atualizado em 22 de junho de 2026. Em 1871, cinco vacas foram abandonadas na remota Ilha Amsterdam, no sul do Oceano Índico. Contra todas as probabilidades, elas não apenas sobreviveram, mas se multiplicaram, formando um rebanho selvagem de quase 2 mil animais que intrigou a ciência por mais de um século, revelando lições sobre evolução, genética e os desafios da conservação.
A saga teve início em 1871, quando um fazendeiro francês chamado Heurtin tentou se estabelecer na Ilha Amsterdam, um território vulcânico, frio e com ventos fortes. Conforme relatado por diversas fontes, o projeto de colonização fracassou em poucos meses, e a família partiu, deixando para trás um pequeno grupo de bovinos. Sem manejo humano, os animais deram início a um experimento natural involuntário.
Cientistas esperavam encontrar uma população com graves problemas de endogamia, dado o pequeno número de fundadores. No entanto, análises de DNA revelaram uma história mais complexa. O estudo genético mostrou que o rebanho tinha uma ancestralidade mista: cerca de 75% de gado taurino europeu (próximo à raça Jersey) e 25% de zebuínos do Oceano Índico, como aponta o Correio 24 Horas. Essa combinação foi crucial:
Uma hipótese inicial sugeria que o rebanho passou por um processo de "nanismo insular" acelerado, diminuindo de tamanho para sobreviver com recursos limitados. Contudo, estudos genéticos mais recentes, citados em veículos como o Agro em Campo, descartaram essa ideia. A análise mostrou que os animais fundadores já descendiam de raças naturalmente menores, como a Jersey e o zebu de Madagascar. Portanto, seu tamanho reduzido era uma característica herdada que favoreceu a sobrevivência, e não uma adaptação evolutiva ocorrida na ilha.
Apesar do valor científico, o rebanho tornou-se um problema ambiental. Como uma espécie invasora em um ecossistema isolado, as vacas degradavam a vegetação nativa e ameaçavam locais de reprodução de aves endêmicas, como o albatroz-de-amsterdã. Segundo o portal MDig, em 1987, uma cerca foi construída para limitar a área de pastoreio. No entanto, para restaurar o ecossistema, as autoridades francesas decidiram pela erradicação completa do rebanho, que foi concluída em 2010. A decisão encerrou um experimento natural único de 130 anos, não sem controvérsias sobre a perda de uma linhagem genética singular.
A sobrevivência do rebanho deveu-se a uma combinação de fatores: uma herança genética mista que conferiu pré-adaptação ao clima e maior diversidade, o pequeno porte herdado de suas raças de origem e um rápido crescimento populacional que mitigou os piores efeitos da endogamia.
Feralização é o processo pelo qual animais domesticados revertem a um estado selvagem. No caso das vacas da Ilha Amsterdam, isso envolveu a readaptação para viver sem intervenção humana, desenvolvendo estruturas sociais complexas e comportamentos de sobrevivência, um processo refletido em mudanças genéticas ligadas ao sistema nervoso, conforme apontam os estudos.
A Ilha Amsterdam é um território francês remoto localizado no sul do Oceano Índico, a mais de 3.000 quilômetros de qualquer costa continental habitada, fazendo parte das Terras Austrais e Antárticas Francesas.
A história das cinco vacas abandonadas na Ilha Amsterdam é uma poderosa demonstração de resiliência e adaptação. O que começou como um fracasso de colonização se transformou em um valioso, embora acidental, estudo de caso sobre evolução, genética de populações e o complexo paradoxo das espécies invasoras. O fim do rebanho serve como um lembrete do delicado equilíbrio entre a preservação de fenômenos biológicos únicos e a necessidade de proteger ecossistemas nativos frágeis.
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