Conheça a jornada de Adana Kambeba, que deixou a Amazônia, formou-se médica na UFMG e agora busca unir a medicina ocidental a saberes ancestrais de seu povo.
Olyvio Marques
Editor · Brasil · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Adana Kambeba fez história ao se tornar a primeira médica do povo Kambeba. Após uma jornada de 4 mil quilômetros de Manaus a Minas Gerais e nove anos na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ela agora une a medicina ocidental aos saberes ancestrais em seu retorno à Amazônia, enquanto se prepara para ser reconhecida também como pajé. Atualizado em 22 de junho de 2026.
Nascida em uma comunidade rural nos arredores de Manaus, em uma casa de palafita, Adana Omágua Kambeba recebeu sinais de sua vocação para o cuidado desde a infância, segundo relatos de sua avó. Apesar do ceticismo de seu pai, que via a medicina como uma carreira para ricos, sua determinação a levou a ser aprovada na UFMG, uma das faculdades de medicina mais prestigiadas do país. A mudança para Belo Horizonte representou um choque cultural e a convivência com o preconceito velado de colegas.
O curso, que normalmente dura seis anos, foi concluído por Adana em nove. Ela atribui o tempo estendido à necessidade de respeitar seu próprio ritmo, um valor aprendido com a cultura indígena. "Precisei entrar num acordo com o modelo de ensino médico, com meus valores culturais e com meu ritmo", afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo.
A proposta de Adana não é substituir um conhecimento pelo outro, mas promover um diálogo entre a medicina científica e a tradicional indígena. Ela acredita que ambas possuem limitações e que, juntas, podem ampliar o arsenal terapêutico para a cura. "Não existe uma medicina superior ou inferior; o que importa é a disposição para o diálogo", explicou ao Meio & Mensagem.
Ela cita exemplos concretos dessa integração, como o curare, veneno usado por indígenas em flechas que foi incorporado à medicina como relaxante muscular em anestesias, e a borracha, conhecimento indígena que revolucionou a indústria e a área da saúde com itens como luvas de látex.
Paralelamente à formação acadêmica, Adana iniciou uma longa jornada para se tornar uma líder espiritual de seu povo. O processo envolve rituais rigorosos, dietas severas que podem durar anos e períodos de isolamento na floresta. Para ser reconhecida como pajé, ela precisa percorrer cerca de 40 aldeias do povo Kambeba e ser aceita por todas.
A etapa final é a "prova do grau", uma cerimônia que envolve o uso da ayahuasca, bebida sagrada utilizada para conectar-se ao mundo espiritual. "Sou uma aprendiz de dois tipos de saberes. Procuro estudar e aprender com o intuito de executar ambas as medicinas com ética", disse Adana.
Adana Omágua Kambeba, também registrada como Danielle Soprano Pereira, é a primeira médica do povo indígena Kambeba. Formada pela UFMG, ela busca integrar a medicina ocidental com os saberes ancestrais e está em processo para se tornar pajé, uma líder espiritual.
O povo Kambeba, ou Omágua ("povo das águas"), é um grupo indígena historicamente importante na região do Alto Amazonas. Eles enfrentaram intensa violência durante a colonização, mas vêm passando por um processo de reafirmação étnica e cultural desde os anos 1980.
Além de ser a primeira médica de seu povo, Adana foi a primeira profissional no Brasil a conquistar o direito de ter seus dois nomes, o indígena e o português, em seu registro no Conselho Federal de Medicina (CFM). Ela também foi a primeira mulher indígena a compor uma comissão no CFM.
A trajetória de Adana Kambeba é um marco para a representatividade indígena na ciência e na saúde. Sua dedicação em construir pontes entre o conhecimento acadêmico e a sabedoria ancestral não apenas abre caminhos para um cuidado mais holístico e plural, mas também inspira novas gerações a valorizar e integrar diferentes formas de saber para o bem-estar coletivo.
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