Antiga área de criação de cavalos do Exército em Valinhos (SP) foi arrematada, mas venda está barrada por ações que apontam riscos ambientais e falhas no edital.
Olyvio Marques
Editor · São Paulo · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
A histórica Fazenda Remonta, uma área de 1,6 milhão de metros quadrados do Exército entre Valinhos e Campinas (SP), está no centro de uma intensa disputa judicial. Atualizado em 12 de agosto de 2026. Embora tenha sido leiloada por R$ 494,4 milhões para a Alphaville Desenvolvimento Imobiliário, a venda foi suspensa pela Justiça Federal e pelo Tribunal de Contas da União (TCU) devido a riscos ambientais e irregularidades no processo.
A Fundação Habitacional do Exército (FHE) realizou o leilão da Gleba B da fazenda em 31 de julho, com um lance mínimo de R$ 90 milhões. A Alphaville foi a única participante e arrematou a área por R$ 494,4 milhões, valor correspondente a 30% do Valor Geral de Vendas (VGV) líquido previsto para o empreendimento imobiliário, conforme informado pela FHE. Contudo, a efetivação do negócio está bloqueada.
Duas decisões liminares impedem a transferência da propriedade. A primeira, da 2ª Vara Federal de Campinas, atendeu a uma ação da Sociedade Protetora da Diversidade das Espécies (Proesp), permitindo o leilão mas proibindo a assinatura de contratos ou a transferência da posse até a análise do mérito ambiental. A segunda, do TCU, também determinou que a FHE se abstenha de assinar qualquer contrato, apontando ao menos 11 possíveis irregularidades no edital, como a falta de transferência formal do imóvel da União para a FHE antes do certame e a ausência de justificativa para a venda de uma área de importância estratégica.
Ambientalistas e autoridades locais defendem que a área é um patrimônio ambiental crucial para a região. A fazenda possui remanescentes de Mata Atlântica e funciona como um corredor ecológico entre a Floresta Estadual Serra d’Água e a Estação Ecológica de Valinhos. Segundo a Proesp, o local abriga espécies ameaçadas como o lobo-guará e a onça-parda.
Além da biodiversidade, a área é estratégica para a segurança hídrica, com nascentes que alimentam o Córrego Invernada, ajudando na prevenção de enchentes em Valinhos e Campinas. Em junho de 2026, a Prefeitura de Valinhos sancionou a Lei nº 6.924, que declarou a fazenda como Patrimônio Material Ambiental do município, impondo restrições a intervenções como supressão de vegetação nativa e parcelamento do solo.
A Fundação Habitacional do Exército afirma em nota que "todos os atos do procedimento vêm sendo conduzidos com observância à legislação vigente, às decisões judiciais e às deliberações dos órgãos de controle competentes". O Centro de Comunicação do Exército informou que a operação patrimonial com a FHE foi concluída.
A empresa vencedora do leilão declarou que "reconhece o legítimo direito de cidadãos, entidades e órgãos de controle de questionarem e analisarem procedimentos administrativos". A Alphaville também esclareceu que não integra os processos judiciais e que aguarda uma comunicação oficial sobre a conclusão da aquisição da área.
A mobilização contra a venda é ampla. O Ministério Público Federal (MPF) ingressou na ação como coautor, reforçando a necessidade de proteção da área. Políticos como a deputada federal Juliana Cardoso (PT-SP) e vereadores de Campinas e Valinhos pediram para atuar como "amicus curiae" (amigos da corte) no processo, fornecendo subsídios técnicos para a decisão judicial. O movimento "SOS Fazenda Remonta" já coletou mais de 10 mil assinaturas contra a venda.
A empresa Alphaville Desenvolvimento Imobiliário Ltda. venceu o leilão com uma proposta de R$ 494,4 milhões, sendo a única participante do certame.
A venda foi suspensa por decisões liminares da Justiça Federal e do Tribunal de Contas da União (TCU), que apontaram riscos ambientais significativos e diversas irregularidades no edital do leilão.
Instalada em 1938, a Fazenda Remonta, também conhecida como Coudelaria de Campinas, era um centro do Exército Brasileiro para a criação de cavalos destinados a unidades militares, como os Dragões da Independência.
O futuro da Fazenda Remonta permanece incerto. De um lado, um negócio imobiliário de quase meio bilhão de reais. Do outro, uma forte mobilização social, política e jurídica para garantir a preservação de uma área considerada vital para o meio ambiente e a qualidade de vida na região de Campinas e Valinhos. A decisão final caberá à Justiça, que avaliará os profundos impactos ambientais e a legalidade do processo de venda.
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