Uma técnica milenar preservou a arte rupestre na Serra da Capivara. Enquanto se fala em sangue e resina, a ciência aponta para óxido de ferro. Entenda.
Olyvio Marques
Editor · Ciência · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
A técnica que preservou as pinturas rupestres de até 12 mil anos no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, é frequentemente atribuída a uma mistura de sangue animal e resina de jatobá. No entanto, análises científicas recentes apontam para uma explicação diferente, baseada em componentes minerais. Atualizado em 5 de setembro de 2026.
Estudos conduzidos por instituições como a Universidade Federal do Piauí (UFPI) revelam que a base dos pigmentos vermelhos, predominantes nas pinturas, é a hematita, um óxido de ferro. Análises químicas detalhadas, utilizando técnicas como fluorescência de raios X e espectroscopia Raman, identificaram a presença de ferro como elemento principal, além de silício, alumínio e outros minerais, conforme apurado em pesquisas de 2019 e 2026 em diferentes sítios arqueológicos.
Essas descobertas científicas não confirmam o uso de sangue animal ou resina de jatobá como aglutinantes. Embora substâncias orgânicas possam ter sido utilizadas, sua detecção é complexa após milênios, e as evidências atuais apontam para uma base mineral como principal responsável pela durabilidade da coloração avermelhada.
A explicação de que os antigos habitantes utilizavam sangue e resina de jatobá para garantir a fixação dos pigmentos é amplamente divulgada. Segundo essa versão, os pigmentos minerais, como a hematita, eram misturados a esses aglutinantes orgânicos antes da aplicação nos paredões de arenito. Contudo, fontes institucionais e pesquisas químicas recentes não validam essa mistura como um fato comprovado, tratando-a como uma hipótese sem demonstração analítica direta.
Reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 1991, o Parque Nacional da Serra da Capivara abriga a maior concentração de sítios arqueológicos com pinturas rupestres do continente americano. Com mais de mil sítios catalogados, os registros oferecem pistas sobre o cotidiano, os rituais e a vida de povos que habitaram a região há milênios, incluindo etnias que permaneceram desconhecidas dos colonizadores portugueses.
As datações dos artefatos e pinturas na região, algumas sugerindo ocupação humana há mais de 50.000 anos, desafiam teorias consolidadas sobre a chegada do homem às Américas, colocando o parque no centro de um importante debate científico global.
As pinturas datam de diferentes épocas ao longo dos últimos 12 mil anos. Alguns especialistas e achados arqueológicos sugerem que a ocupação humana na área pode ser ainda mais antiga, chegando a 36 mil ou até 100 mil anos atrás.
Os desenhos representam o cotidiano dos povos antigos. As cenas variam de caçadas, danças e rituais a atividades sexuais e batalhas. Figuras humanas, animais selvagens e padrões geométricos são os símbolos mais comuns, com um dos fragmentos mais famosos mostrando um beijo.
A visita ao parque é permitida apenas com o acompanhamento de um guia credenciado. O acesso principal pode ser feito pelas cidades de Coronel José Dias ou São Raimundo Nonato. A entrada é gratuita, mas a contratação do guia é obrigatória para a proteção dos sítios.
O segredo da preservação das pinturas rupestres no Piauí reside mais na química dos minerais do que em uma receita não comprovada. A ciência demonstra que a hematita (óxido de ferro) é o componente chave da tinta vermelha, garantindo sua resistência ao tempo. A Serra da Capivara continua sendo um tesouro arqueológico, cuja importância vai além da composição de suas tintas, reescrevendo a história da ocupação humana nas Américas.
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