Estudo genético aponta que mistura de raças e rápida adaptação comportamental foram cruciais para evitar a extinção do grupo em mais de um século de isolamento.
Olyvio Marques
Editor · Ciência · · 2 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Uma história de sobrevivência que desafia as probabilidades da genética foi revelada por cientistas que estudaram um rebanho de bovinos na remota Ilha de Amsterdã, um território francês no sul do Oceano Índico. Em 1871, apenas cinco animais foram abandonados no local e, ao longo de 130 anos, deram origem a uma população de quase 2 mil cabeças, que prosperou em um ambiente hostil e isolado.
Um estudo publicado na revista científica Molecular Biology and Evolution desvendou o mistério genético por trás do sucesso do rebanho. A análise de DNA, liderada pelo geneticista Mathieu Gautier, mostrou que os animais possuíam uma origem mista: cerca de 75% de seu material genético era de raças taurinas europeias, semelhantes à Jersey, enquanto 25% vinham de linhagens zebuínas, comuns em Madagascar e outras regiões do Oceano Índico. Essa combinação, presente desde os animais fundadores, teria fornecido as características necessárias para resistir ao clima frio, ventos fortes e recursos limitados da ilha.
A pesquisa também refutou uma teoria anterior, de 2017, que sugeria um processo acelerado de "nanismo insular", onde os animais teriam encolhido drasticamente para se adaptar. O novo estudo genético não encontrou evidências dessa adaptação, indicando que os bovinos fundadores, descendentes de raças como a Jersey e zebuínos locais, já eram naturalmente de pequeno porte.
Apesar de um gargalo genético severo e altos níveis de endogamia (cruzamento entre parentes), o rebanho não apresentou sinais significativos de deterioração. Segundo os pesquisadores, o rápido crescimento populacional inicial ajudou a preservar a diversidade genética. Além disso, a seleção natural atuou principalmente em genes ligados ao sistema nervoso, promovendo uma rápida "feralização" — o retorno ao estado selvagem. Os animais desenvolveram comportamentos mais ariscos e uma organização social complexa, essenciais para sobreviver sem intervenção humana.
Apesar de seu valor científico, a história do rebanho da Ilha de Amsterdã chegou ao fim em 2010. A população de bovinos foi completamente eliminada em um programa de restauração ecológica. A decisão foi tomada porque os animais, como espécie introduzida, causavam danos ao ecossistema local, ameaçando espécies nativas como a árvore Phylica arborea e o albatroz-de-amsterdã.
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