Tecnologia LiDAR revela uma vasta rede de cidades, estradas e canais pré-colombianos escondidos na Amazônia. Entenda como a descoberta reescreve a história.
Olyvio Marques
Editor · Ciência · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Atualizado em 22 de junho de 2026. Mapeamentos a laser revelaram o que se pensava ser impossível: uma extensa rede de cidades com até 2.500 anos, escondida sob a densa vegetação da Amazônia. A tecnologia, conhecida como LiDAR, permitiu que arqueólogos identificassem complexos sistemas urbanos, com ruas, praças e canais, desafiando a visão tradicional de que a floresta era um grande vazio demográfico antes da chegada dos europeus.
A tecnologia LiDAR (Light Detection and Ranging) funciona como uma espécie de "raio-x" da paisagem. Lançando pulsos de laser a partir de aeronaves, ela consegue atravessar a copa das árvores e mapear o relevo do solo com alta precisão. Segundo pesquisadores, esse método revelou estruturas como valas, plataformas e estradas que eram invisíveis a olho nu, permitindo a descoberta de assentamentos inteiros sem a necessidade de desmatamento.
Essa abordagem representa uma revolução para a arqueologia na região, comparável ao impacto da datação por carbono-14, conforme aponta Eduardo Góes Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. A capacidade de mapear grandes áreas de forma rápida e não invasiva está conectando vestígios que antes eram vistos como isolados, mostrando que a floresta é, na verdade, uma paisagem construída por sociedades complexas.
Uma das descobertas mais impactantes ocorreu no Vale do Upano, no Equador, na encosta dos Andes. Lá, a tecnologia LiDAR revelou uma rede de cidades ocupadas entre 500 a.C. e 600 d.C., período contemporâneo ao Império Romano. Essa datação é mais de mil anos anterior a qualquer outra sociedade complexa conhecida na Amazônia, como Machu Picchu.
Liderada pelo arqueólogo Stéphen Rostain, a pesquisa identificou mais de 6.000 plataformas de terra, que serviam de base para construções, organizadas em torno de praças. As cidades eram interligadas por estradas retas e largas, algumas com até 10 metros de largura e 20 quilômetros de extensão. Rostain descreve o modelo como "cidades-jardim", devido à integração entre as áreas urbanas e os campos agrícolas retangulares e terraços para cultivo de milho, mandioca e batata-doce.
A organização dos assentamentos sugere um nível sofisticado de engenharia e planejamento. Além das estradas, foram encontrados canais de drenagem e fossos de defesa ao redor das vilas. A construção dessas estruturas, feitas principalmente com lama e terra, exigiu um sistema elaborado de trabalho organizado. Estima-se que a região abrigava no mínimo 10.000 habitantes, podendo chegar a 30.000 em seu auge, uma população comparável à de Londres na era romana.
Esses achados refutam categoricamente a ideia de que a Amazônia era uma "região selvagem intocada". As evidências demonstram que a floresta abrigou civilizações complexas que dominavam conceitos avançados de planejamento urbano, manejo de recursos hídricos e agricultura. A presença de "terra preta", um solo extremamente fértil criado por ação humana, reforça a ideia de uma ocupação contínua e planejada.
As descobertas também fortalecem a luta dos povos indígenas contemporâneos pela demarcação de seus territórios, ao provar que essas terras têm um passado profundo e um legado cultural milenar. A arqueologia, apoiada pela tecnologia, demonstra que a Amazônia nunca foi um território vazio.
LiDAR (Light Detection and Ranging) é um método de sensoriamento remoto que utiliza pulsos de laser, geralmente disparados de uma aeronave, para mapear a superfície da Terra. Ele consegue "atravessar" a vegetação e criar modelos 3D detalhados do relevo, revelando estruturas arqueológicas ocultas pela floresta.
Embora seja difícil estimar com precisão, os arqueólogos calculam que os assentamentos no Vale do Upano, no Equador, abrigavam pelo menos 10.000 habitantes, com picos que poderiam chegar a 15.000 ou 30.000 pessoas, uma população comparável à de Londres durante o Império Romano.
Não. Embora a descoberta no Vale do Upano seja uma das mais antigas, pesquisas com LiDAR e outras tecnologias também revelaram sítios arqueológicos complexos em outras partes da Amazônia, como na Bolívia (cultura Casarabe) e no Brasil, em estados como Mato Grosso (Alto Xingu) e na bacia do rio Tapajós.
A aplicação de tecnologias como o LiDAR está inaugurando uma nova era para a arqueologia amazônica. As cidades, estradas e campos agrícolas que emergem dos mapas digitais provam que a maior floresta tropical do mundo foi o lar de sociedades urbanas, populosas e engenhosas muito antes do que se imaginava. Cada nova descoberta não apenas reescreve o passado, mas também oferece lições sobre formas sustentáveis de ocupação e manejo do ecossistema florestal.
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